MÃE-TERRA

Mas você tem certeza? Tem certeza de que até mesmo um historiador profissional sempre sabe distinguir uma vitória de uma derrota?
Gustav Stein, que fez esta gozação, não era historiador. Era um fisiologista.
Mas seu companheiro era um historiador, e aceitou a gentil investida com um sorriso próprio.
O apartamento de Stein era, para a Terra, bastante luxuoso. Faltava-lhe a privacidade vazia dos Mundos Cósmicos, é claro, visto que, de sua janela, estendia-se um fenômeno que pertencia exclusivamente ao seu planeta natal — a cidade. Uma grande cidade, cheia de gente, ombros se tocando, suores se misturando...
Tampouco era o apartamento de Stein aparelhado como poderia ser. Faltava-lhe a cota mais elementar de robôs positrônicos. Em resumo, faltava-lhe a dignidade da auto-suficiência, e como todas as coisas na Terra, era simplesmente parte de uma comunidade, uma unidade pendurada de um conjunto de apartamentos, uma porção de uma multidão.
Mas Stein era um terráqueo de nascimento e estava acostumado com ela. E, afinal de contas, pelos padrões da Terra, o apartamento ainda era luxuoso.
Era através das mesmas janelas que se podiam ver as estrelas e, entre elas, os Mundos Cósmicos, onde não havia cidades, só jardins; onde os gramados eram camadas de esmeralda, onde todos os seres humanos eram reis, e onde todos os bons terráqueos esperavam, ansiosamente e inutilmente, ir algum dia.
Com exceção de alguns que conheciam melhor — como Gustav Stein.
As noites de sextas-feiras com Edward Field pertenciam àquele tipo de ritual que chega com a idade e com a vida tranqüila.
Quebrava, agradavelmente, a monotonia da semana dos dois solteirões, e lhes dava um motivo inócuo para se demorarem no licor e nas estrelas.
Afastava-os da crueldade da vida, e, mais do que tudo, dava-lhes uma oportunidade de conversarem.
Field, especialmente, sendo um conferencista, erudito e homem de poucas posses, citava os capítulos e frases de sua história, ainda incompleta, do Império Terrestre.
— Estou esperando o último ato — explicou. — Depois, poderei intitulá-lo o “Declínio e Queda do Império” e publicá-lo.
— Você deve achar, então, que o último ato virá logo.
— Num certo sentido, já veio. Apenas é melhor esperar até que todos reconheçam este fato. Veja, há três etapas quando um império, um sistema econômico ou uma instituição social decaem, seu cético...
Field fez uma pausa para dar maior efeito e esperou pacientemente Stein dizer: — E quais são?
— Primeiro — Field ergueu o dedo indicador — há uma etapa onde aparece um pontinho indicando um caminho inexorável para o fim. Não pode ser visto nem reconhecido até o fim chegar, quando o pontinho original torna-se visível aos que têm uma percepção menor.
— E você pode me dizer que pontinho é esse?
— Acho que sim, visto que tive a vantagem de um século e meio de percepção tardia. Surgiu quando a colônia do setor sírio, Aurora, obteve, pela primeira vez, permissão do governo central da Terra para introduzir robôs positrônicos em sua vida comunitária. Obviamente, quando se olha para trás, estava aberto o caminho para o desenvolvimento de uma sociedade totalmente mecanizada baseada no trabalho de robôs, e não de seres humanos. E esta mecanização é que foi e será o fator decisivo na luta entre os Mundos Cósmicos e a Terra.
— E? — murmurou o fisiologista.
— Como vocês, historiadores, são infernalmente espertos. O que é e onde foi a segunda vez que o império caiu?
— O segundo ponto no tempo — e Field levantou o dedo médio — chega quando é preciso fazer um letreiro tão grande e claro que possa ser visto sem a ajuda da perspectiva.
E este ponto também já passou, com o primeiro estabelecimento de uma cota de imigração pelos Mundos Cósmicos contra a Terra. O fato de que a Terra viu-se incapaz de impedir uma ação tão claramente prejudicial a ela própria foi um grito para todos ouvirem, e isto foi há cinqüenta anos atrás.
— Cada vez melhor. E o terceiro ponto?
— O terceiro ponto? — Ergueu o anular. — Este é o menos importante. Este é quando o letreiro torna-se uma parede enorme com um “Fim” rabiscado sobre ela. A única condição para se saber que o fim chegou. então, não é nem a perspectiva nem o treinamento, mas, meramente, a habilidade de se ver televisão.
— Acho, então, que o terceiro ponto ainda não veio.
— Obviamente que não, senão você não precisaria me perguntar.
— Todavia, pode vir, brevemente; por exemplo se houver uma guerra.
— Você acredita que haverá?
Field evitou uma afirmação categórica.
— Os tempos estão incertos, e há muita emoção fútil assolando a Terra por causa da questão da imigração. E se houvesse uma guerra, a Terra seria derrotada rápida e duradouramente, e a parede seria erigida.
— Você tem certeza? Tem certeza de que até mesmo um historiador profissional sempre sabe distinguir uma vitória de uma derrota?
Field sorriu. Disse: — Talvez você saiba algo que não sei. Por exemplo, falam sobre algo chamado “Projeto Pacífico”.
— Nunca ouvi falar. — Stein tornou a encher os dois copos. — Vamos falar de outras coisas.
Ergueu seu copo na direção da janela, fazendo com que as estrelas brilhassem em tons de rosa no líquido e disse: — A um final feliz para os problemas da Terra.
Field levantou o seu — Ao Projeto Pacífico.
Stein tomou um gole suavemente e disse: — Mas nós estamos bebendo a duas coisas diferentes.
— Estamos?

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