MÃE-TERRA

É bastante difícil descrever qualquer um dos mundos Cósmicos a um terráqueo nativo, visto que não se trata tanto de uma descrição de um mundo, mas de um estado de espírito.
Os Mundos Cósmicos — uns cinqüenta, primeiramente colônias, mais tarde domínios, mais tarde nações — são extremamente diferentes entre si num sentido físico.
Mas o estado de espírito é praticamente o mesmo em todos eles.
É algo que surge de um mundo originariamente incompatível com a espécie humana, todavia habitado pela nata das pessoas difíceis, diferentes e ousadas.
Para se dizer numa única palavra, esta palavra é “individualidade.”
Há o mundo de Aurora, por exemplo, a três parsecs da Terra. Foi o primeiro planeta colonizado fora do sistema solar, e representou a aurora das viagens interestelares. Daí o seu nome.
Possuía ar e água para o começo, talvez, mas pelos padrões da Terra era rochosa e infértil. A vida vegetal que realmente existia, formada por um pigmento amarelo esverdeado completamente diferente da clorofila e não tão eficiente quanto esta, dava às regiões comparativamente férteis um aspecto bilioso e desagradável aos olhos desacostumados.
Não havia nenhuma vida animal mais alta do que a unicelular, bem como a equivalente à bactéria.
Nada perigoso, naturalmente, visto que os dois sistemas biológicos, o da Terra e o de Aurora, não possuíam qualquer relação química.
Aurora tornou-se, bem gradativamente, um canteiro. Sementes e árvores frutíferas foram as que chegaram primeiro; depois, arbustos, flores e grama. Em seguida, grandes quantidades de gado.
E, como se fosse necessário impedir uma cópia demasiadamente fiel do planeta-mãe, vieram também robôs positrônicos para construírem as mansões, formarem as paisagens e instalarem as unidades de força. Em resumo, para fazerem o trabalho e tornarem o planeta verde e humano.
Havia o luxo de um mundo novo e reservas minerais ilimitadas. Havia o excesso esplêndido de energia atômica instalada em novas fundações com apenas milhares, ou, no máximo, milhões, e não bilhões, de pessoas para servir.
Havia o imenso florescer da ciência física, em mundos onde havia espaço para ela.
Vejam a casa de Franklin Maynard, por exemplo, o qual, com sua esposa, três filhos e vinte e sete robôs, vivia num estado a mais de quarenta milhas de distância de seu vizinho mais próximo.
Todavia, através da onda comunitária, podia, se quisesse, estar na sala de qualquer um dos setenta e cinco milhões de habitantes de Aurora — com cada um, separadamente; com todos, simultaneamente.
Maynard conhecia cada polegada de seu vale. Sabia exatamente onde acabava, abruptamente, para dar lugar aos penhascos, nos quais agarravam-se as folhas angulosas e afiadas do tojo nativo — como que odiando a matéria mais suave que lhe havia usurpado o lugar no sol.
Maynard não precisava sair deste vale. Era deputado na Assembléia e membro do Comitê de Agentes Estrangeiros, mas podia discutir qualquer negócio, com exceção do algo extremamente essencial, pela onda comunitária, sem nunca sacrificar aquela preciosa privacidade que precisava ter, de um modo que nenhum terráqueo entenderia.
Até mesmo o assunto no momento podia ser resolvido pela onda comunitária. O homem, por exemplo, que estava sentado com ele em sua sala, era Charles Hijkman e este, na verdade, estava sentado em sua própria sala, numa ilha de um lago artificial com cinqüenta variedades de peixes que por acaso, ficava a duas mil e quinhentas milhas de distância, no espaço.
A conexão era uma ilusão, claro. Se Maynard estendesse a mão, poderia sentir a parede invisível.
Até os robôs estavam bem acostumados com o paradoxo, e quando Hijkman quis um cigarro, o robô de Maynard não se mexeu para satisfazer este desejo, embora meio minuto se passou até que o robô de Hijkman o trouxesse.
Os dois homens estavam falando como nativos dos Mundos Cósmicos, isto é, formalmente e com as sílabas muito entrecortadas para serem cordiais, mas, ainda assim, sem hostilidade. Simplesmente havia uma falta indefinível da sociabilidade humana — ainda que azeda e escassa, ás vezes — imposta com tanta força aos formigueiros da Terra.
Maynard disse: — Há muito tempo que venho desejando ter uma conversa particular, Hijkman. Mas obrigações na Assembléia, este ano...
— Claro. Eu compreendo. É óbvio que você é bem-vindo. Na verdade, especialmente bem-vindo, visto que ouvi falar da natureza superior de suas terras e paisagens. E verdade que seu gado é alimentado com grama importada?
— Receio que isto seja um pouco de exagero. Na verdade, algumas de minhas melhores vacas leiteiras são alimentadas com produtos importados da Terra durante a gestação, mas isto ficaria caro demais se eu o tornasse uma prática generalizada. Entretanto, faz um leite extraordinário. Poderia ter o privilégio de lhe mandar uma de minhas produções diárias?
— Seria muito gentil de sua parte. — Hijkman abaixou a cabeça, gravemente. — Você precisa receber alguns de meus salmões, em troca.
Para um olho terráqueo, os dois homens poderiam parecer bastante semelhantes. Ambos eram altos, ainda que não excessivamente para Aurora, onde a média de altura do homem adulto é de seis pés e uma polegada e meia. Ambos eram loiros e de músculos fortes, com características pronunciadas. Embora nenhum tivesse menos de quarenta anos, a meia-idade quase não se fazia notar em ambos.
Bastava de amenidades. Sem uma mudança no tom, Maynard procedeu ao ponto sério de sua visita.
Disse: — O Comitê está, no momento, bastante comprometido com Moreanu e seus Conservadores. Gostaríamos de lidar com eles com firmeza, nós, os Independentes. Mas antes de fazermos isto com calma e certeza, eu gostaria de lhe fazer algumas perguntas.
— Por que eu?
— Por que você é o físico mais importante de Aurora.
A modéstia não é uma atitude natural, e é com muita dificuldade que se a ensina às crianças. Numa sociedade individualista, ela é inútil e Hijkman, portanto, não ficou embaraçado. Apenas acenou confirmando, objetivamente, as últimas palavras de Maynard.
— E — continuou Maynard — como um de nós, você é um Independente.
— Sou um membro do Partido. Contribuinte, mas não muito ativo.
— Não obstante, seguro. Agora, diga-me, já ouviu falar no “Projeto Pacífico”?
— O “Projeto Pacífico”? — Houve uma pergunta polida em suas palavras.
— E algo que está acontecendo na Terra. O Pacífico é um oceano terrestre, mas o nome em si, provavelmente, não tem nenhum significado.
— Nunca ouvi falar nele.
— Não fico surpreso. Poucos ouviram, mesmo na Terra. A propósito, nossa comunicação se faz pelo rádio e não podemos ir além disso.
— Entendo.
— Seja o Projeto Pacífico o que for — e nossos agentes são extremamente vagos — é concebível pensar que poderia ser uma ameaça. Muitos daqueles que, na Terra, passam por cientistas parecem estar ligados a ele. Assim como, alguns dos políticos mais tolos e radicais da Terra.
— Hum-m-m. Há algum tempo, houve alguma coisa chamada Projeto Manhattam.
— Sim - incitou Maynard — e que tal este?
—- Ah, é uma coisa antiga. Ocorreu-me simplesmente por causa da analogia dos nomes. O Projeto Manhattam foi da época anterior às viagens extraterrestres. Houve alguma guerrinha nas idades obscuras, e foi o nome dado a um grupo de cientistas que desenvolveram a energia atômica.
— Ah — e Maynard fechou as mãos — e o que pensa que o Projeto Pacífico pode fazer, então?
Hijkman pensou. Então, suavemente: — Você acha que a Terra está planejando uma guerra?
Surgiu uma repentina expressão de desgosto na face de Maynard. —Seis bilhões de pessoas. Seis bilhões de meio-macacos, melhor dizendo, apinhados num sistema a ponto de explodir, vendo apenas alguns milhares de nós, no total. Você não acha que é uma situação perigosa?
-- Oh, números!
— Muito bem. Estamos salvos, apesar dos números? Diga-me. Sou apenas um administrador e você é um físico. A Terra pode, de algum modo, ganhar a guerra?
Hijkman sentou-se solenemente em sua cadeira e pensou cuidadosa e demoradamente. Então disse: — Vamos raciocinar. Há três grandes classes de métodos pelas quais um indivíduo ou um grupo pode alcançar seus objetivos contra a oposição. Num nível mais sutil, estas três classes podem ser denominadas física, biológica e psicológica.
Bem, a física pode ser facilmente eliminada. A Terra não tem um passado industrial. Não tem um “know-how” técnico. Tem recursos muito limitados. Não tem nem mesmo um único físico de nome. Assim sendo, é impossível, mais do que tudo nesta galáxia, que possam desenvolver qualquer forma de aplicação físico-química que já não seja conhecida pelos Mundos Cósmicos. Isto, é claro, contando-se que a Terra se oporá sozinha aos Mundos Cósmicos. Estou partindo do princípio de que nenhum dos Mundos Cósmicos pretende unir-se à Terra contra nós.
Maynard fez uma oposição violenta até mesmo á sugestão. — Não, não, não. Não há o que discutir quanto a isso. Tire isso de sua cabeça.
— Então, não podemos pensar em armas físicas desconhecidas. Não é necessário continuar a discutir este ponto.
— Então, e a segunda classe, a biológica?
Hijkman ergueu as sobrancelhas lentamente: — Bom, esta é menos segura. Alguns biólogos terrestres são bastante competentes, pelo que me disseram. Naturalmente, visto que eu próprio sou um físico, não estou inteiramente qualificado para julgar isto. Todavia, acredito que, em certos campos restritos, eles ainda são “experts”. Na ciência da agricultura, é claro, para dar um exemplo óbvio. E em bacteriologia. Hum-m-m...
— Sim, e uma guerra bacteriológica?
— Que pensamento! Não, não, praticamente inconcebível. Um mundo lotado como a Terra não pode lutar com germes contra cinqüenta mundos espalhados. Estão infinitamente mais sujeitos a epidemias, isto é, a uma vingança nos mesmos termos. Na realidade, eu diria que, com as condições de vida de Aurora e dos outros Mundos Cósmicos, nenhuma doença contagiosa poderia realmente nos atingir. Não, Maynard. Você pode verificar com um bacteriologista, mas acredito que ele lhe dirá o mesmo.
Maynard disse: — E a terceira classe?
— A psicológica? Bem, esta é imprevisível. Todavia os Mundos Cósmicos são inteligentes e comunidades ricas, não influenciáveis por propagandas políticas comuns ou por esta questão, a ponto de serem tomados por uma onda de emocionalismo prejudicial. Agora, eu só fico pensando se...
— Sim?
— E se o Projeto Pacífico for exatamente isto? Quero dizer, uma maneira de nos desequilibrar. Algo altamente secreto, mas criado com a intenção de que seja transpirado bem à moda antiga, para que os Mundos Cósmicos cedam um pouco à Terra, simplesmente para se garantirem.
Houve um longo silêncio.
— Impossível — explodiu Maynard com raiva.
— Você está reagindo como se deve. Você está hesitando. Mas eu não estou forçando esta interpretação. E apenas um pensamento.
Um silêncio maior, e em seguida Hijkman falou de novo: — Há alguma outra pergunta?
Maynard interrompeu sua divagação. — Não... não...
A onda foi interrompida e apareceu uma parede onde havia espaço, há um momento atrás.
Lentamente, persistindo em sua descrença, Franklin Maynard balançou a cabeça.

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